Casos Internacionais

Caso Gisberta: Uma Vida de Luta e Resistência

Gisberta Salce Júnior, uma mulher trans brasileira, tornou-se um símbolo de luta contra a discriminação e a violência. Sua história, marcada por desafios e superações, é um testemunho da resistência da comunidade LGBTQIA+ e da necessidade de mudanças sociais. Neste artigo, vamos explorar o caso Gisberta, desde sua infância até o trágico fim que a transformou em um ícone de igualdade de gênero em Portugal.

Gisberta Salce Júnior
Reprodução: Splash UOL

Infância e Descoberta da Identidade de Gênero

Gisberta nasceu no dia 5 de setembro de 1960, em São Paulo, Brasil. Filha caçula de uma família de oito filhos, ela cresceu em um ambiente onde, desde cedo, demonstrava interesse por artes, dança e moda. Ainda criança, Gisberta já se identificava com o universo feminino, brincando com suas irmãs e se sentindo mais à vontade entre as meninas.

Sua mãe, preocupada com o comportamento da filha, a levou a um médico, que atribuiu suas preferências a “excesso de mimos”. Aos 14 anos, com a morte do pai, Gisberta começou a assumir sua identidade de gênero, adotando o nome Gisberta e vivendo como mulher, apesar das dificuldades e preconceitos que enfrentava.

Mudança para a Europa e Vida em Portugal

Aos 18 anos, Gisberta tomou a decisão de deixar o Brasil, um país onde a violência contra pessoas trans só aumentava, e partiu para a França em busca de uma vida mais segura. Após um tempo vivendo no exterior, ela retornou ao Brasil para iniciar o tratamento hormonal e fazer implantes de silicone nos seios, passos importantes em sua transição. Mais tarde, ela voltou à França e, em seguida, estabeleceu-se no Porto, Portugal, local que se tornaria seu lar definitivo e onde viveria os anos seguintes de sua vida.

No Porto, Gisberta rapidamente se tornou uma figura emblemática da cena LGBTQIA+ local. Com sua beleza cativante e personalidade vibrante, ela conquistava o público em bares e boates gays, onde se apresentava com entusiasmo e talento. Gisberta tinha um fascínio especial por personificar Marilyn Monroe em seus shows, uma característica que tornava suas performances memoráveis. No entanto, a vida artística, apesar de gratificante, não oferecia a estabilidade financeira que ela precisava. Para complementar sua renda, Gisberta acabou recorrendo ao trabalho sexual, uma realidade que refletia as dificuldades enfrentadas por muitas pessoas trans na época.

A Perda dos Cães e o Início da Decadência

Gisberta tinha dois cães, Carolina e Leonardo, que eram sua principal companhia e fonte de afeto. No entanto, a morte de Leonardo e, pouco depois, de Carolina, abalou profundamente seu equilíbrio emocional. Essas perdas a levaram a uma depressão profunda, e ela começou a usar drogas como forma de escape, tornando-se dependente química. O vício a fez perder sua casa e seus poucos pertences, mergulhando-a em uma espiral de decadência que agravou ainda mais sua situação já fragilizada.

Além disso, ela contraiu HIV e outras doenças, como tuberculose e pneumonia, que debilitaram ainda mais sua saúde. Sua aparência física mudou drasticamente, e ela já não era mais convidada para se apresentar. Gisberta passou a viver em uma barraca improvisada em um edifício abandonado, em condições precárias, dependendo da ajuda de associações e amigos para sobreviver.

Últimos meses de vida

No final de 2005, três adolescentes, Fernando, Ivo e Flávio, começaram a se reunir para pintar grafites em um prédio abandonado no Porto, o mesmo local onde Gisberta vivia em uma barraca. A mãe de Fernando era trabalhadora sexual e, por isso, ele passava boa parte do tempo com uma babá. A casa da família era frequentada por pessoas ligadas à vida noturna da cidade, e foi nesse contexto que a mãe de Fernando e o próprio garoto estabeleceram uma conexão com Gisberta. Embora o contato entre eles tenha se perdido por um tempo, foi Fernando, aos 14 anos, quem mais tarde reconheceu Gisberta no prédio abandonado onde ele e seus amigos costumavam pintar murais.

Os três adolescentes começaram a conversar com Gisberta e, a partir desses encontros, passaram a visitá-la com frequência. Durante essas visitas, ela compartilhava com eles os problemas de saúde que enfrentava, falando abertamente sobre sua fragilidade e sobre o fato de ser soropositiva, uma condição cujos sinais físicos eram bem conhecidos pelos jovens. Movidos por uma aparente solidariedade, os três passaram a levar comida para Gisberta e, em algumas ocasiões, até preparavam refeições para ela no local, conforme registrado no processo judicial.

O Trágico Fim de Gisberta

Fernando, Ivo e Flávio começaram a falar sobre “um homem que ‘tinha peitos’ e ‘parecia mesmo uma mulher'” para os colegas da Escola Augusto César Pires de Lima e da Oficina de São José, uma instituição ligada à Igreja Católica que acolheu 11 dos 14 jovens envolvidos na tortura e morte de Gisberta. A instituição, aliás, foi posteriormente fechada após uma série de escândalos, incluindo denúncias de abusos sexuais, desvio de recursos e o suicídio de um diretor durante o auge do julgamento. Aos três adolescentes que inicialmente conheceram Gisberta, somaram-se outros onze, curiosos para ver e conhecer a mulher sobre quem tanto ouviam falar.

Gisberta foi alvo de uma série de agressões brutais por parte do grupo de adolescentes. Durante dias, ela foi espancada, humilhada e torturada pelos jovens, que a atacavam com chutes, pedradas e golpes de madeira. Após dias de violência extrema, Gisberta, já gravemente ferida, não resistiu aos ferimentos. Os adolescentes, então, decidiram jogar seu corpo em um poço que havia dentro do edifício abandonado. O laudo da autópsia revelou, posteriormente, que Gisberta ainda estava viva quando foi lançada no poço, e sua morte ocorreu por afogamento, devido à água acumulada no fundo do local.

Julgamento do caso

Os menores foram inicialmente acusados de homicídio qualificado, mas a acusação foi alterada para ofensas corporais qualificadas. O único que poderia ser julgado como adulto era o mais velho do grupo, com 16 anos. No entanto, os outros adolescentes testemunharam que ele apenas presenciou as agressões, sem participar ativamente. Por isso, ele foi condenado a oito meses de prisão por omissão de auxílio, ou seja, por não ter socorrido uma pessoa em risco de morte. Entre julho e setembro de 2007, pouco mais de um ano após o crime, todos os envolvidos já estavam livres.

O juiz chegou a afirmar, textualmente, que o assassinato foi “uma brincadeira de mau gosto de crianças que fugiu ao controle”. Gisberta foi amarrada a um pedaço de madeira e jogada no poço, mas, ao final do julgamento, concluiu-se que sua morte foi causada pela água, e não pelos jovens que a lançaram lá.

O caso chocou Portugal e o mundo, expondo a violência e a discriminação enfrentadas por pessoas trans. Gisberta tornou-se um símbolo de luta contra a transfobia, e sua história inspirou manifestações, mudanças legislativas e projetos de conscientização sobre os direitos da comunidade LGBTQIA+.

O Legado de Gisberta

A morte de Gisberta gerou um impacto profundo em Portugal. Sua história foi contada em documentários, livros, peças de teatro e até em uma música, “A Balada de Gisberta”, composta por Pedro Abrunhosa e interpretada por Maria Bethânia. Além disso, o caso acelerou mudanças legais, facilitando a retificação de nome e gênero em documentos para pessoas trans.

Gisberta foi enterrada em sua cidade natal, São Paulo, mas seu nome e sua luta continuam vivos em Portugal, onde ela é lembrada como um marco na busca por igualdade de gênero e respeito à diversidade.

A história de Gisberta é um lembrete doloroso, mas necessário, da importância de combater a discriminação e a violência contra pessoas trans. Sua vida e sua morte nos mostram que ainda há muito a ser feito para garantir que todas as pessoas, independentemente de sua identidade de gênero, possam viver com dignidade e respeito. Gisberta não será esquecida – ela é e sempre será um símbolo de resistência e luta por um mundo mais justo e igualitário.

Série documental sobre o caso: “Gisberta – Vida e Morte”

Em 2025, será lançada uma minissérie de quatro episódios, cada um com 45 minutos de duração. A produção terá como base um arco narrativo exclusivo, construído a partir de depoimentos de familiares e amigos de Gisberta, além de pessoas diretamente envolvidas no caso, incluindo os adolescentes – hoje adultos. Ainda não há previsão de lançamento da série no Brasil.

Com criação, direção e roteiro de Rodrigo Rebouças, em parceria com Alice Marcondes, e direção geral de Leonel Vieira, a série conta com produção executiva de Cebola Guedes-Cebola e Luís Antônio Silveira. A coprodução da minissérie é uma colaboração entre o núcleo de true crime da produtora brasileira Ultravioleta e a portuguesa Volf Entertainment.

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