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Caso Elize Matsunaga: A discussão que terminou em morte

Na noite de 19 de maio de 2012, o empresário Marcos Kitano Matsunaga entrou no elevador do próprio apartamento para buscar uma pizza. Não voltaria mais. Horas depois, sua esposa Elize deixaria o prédio carregando três malas. O que estava dentro delas só seria descoberto dias depois, em uma estrada na região de Cotia, na Grande São Paulo. O caso Elize Matsunaga chocou o país e se tornou um dos crimes mais comentados da história recente do Brasil.


Elize Matsunaga e o empresário Marcos Kitano — Foto: Reprodução

Quem era Marcos Matsunaga?

Marcos Kitano Matsunaga nasceu em São Paulo, em 1970, e cresceu no bairro do Parque Continental. Estudou em bons colégios da capital e se formou em Administração na FGV. Sua família era herdeira da Yoki, empresa alimentícia fundada na década de 1960 pelo avô dele, Yoshizo Kitano. Ao concluir os estudos, Marcos assumiu o controle da empresa e tornou-se seu presidente executivo.

Era descrito por conhecidos como extrovertido e bem-humorado. Tinha uma coleção de 33 armas de fogo e compartilhava com a esposa o interesse por animais selvagens. O casal costumava frequentar o Zoológico de São Paulo quase toda semana.


Quem era Elize Matsunaga?

Elize Araújo nasceu em 29 de novembro de 1981, em Chopinzinho, cidade de pouco mais de 20 mil habitantes no interior do Paraná. Criada pela mãe solteira, que trabalhava como empregada doméstica, estudou em colégios públicos e era considerada boa aluna.

Aos 18 anos, mudou-se para Curitiba para fazer um curso técnico de enfermagem e passou a trabalhar em hospital. Pouco tempo depois, foi para São Paulo, onde começou a se oferecer como acompanhante por um site de relacionamentos.

Foi dessa forma que conheceu Marcos, em 2004. Ele era casado, mas manteve encontros regulares com ela por cerca de três anos. Em 2009, divorciou-se da primeira esposa e casou-se com Elize.


A relação e os sinais de crise

Os primeiros anos de casamento foram tranquilos. Em 2010, Elize ficou grávida e, após o nascimento da filha do casal, as tensões domésticas amenizaram por um tempo. A calmaria durou pouco.

Ainda em 2010, Elize voltou a desconfiar da fidelidade do marido. Encontrou mensagens trocadas entre Marcos e outra mulher. As brigas se tornaram frequentes, e ex-funcionários do casal relataram que o ambiente era de conflito constante.

Em maio de 2012, Elize contratou um detetive particular para confirmar suas suspeitas. Também procurou um advogado para saber a que teria direito em um eventual divórcio. No dia 17, viajou para Chopinzinho para visitar a mãe. Nessa mesma noite, o detetive enviou fotos e vídeos confirmando que Marcos estava com uma outra mulher em um hotel no centro de São Paulo.

Elize antecipou a volta para o dia 19 de maio.


O Crime

Marcos buscou Elize, a filha e a babá no aeroporto. Chegaram ao apartamento, na Vila Leopoldina, por volta das 18h30. A babá foi dispensada logo em seguida.

Por volta das 19h30, Marcos desceu de elevador para buscar uma pizza no térreo. As câmeras de segurança do prédio registraram sua saída. Eram as últimas imagens dele com vida.

Ao retornar ao apartamento, Elize confrontou o marido sobre a traição. A discussão escalou. Segundo o relato dela, Marcos a ameaçou de morte e disse que tomaria a guarda da filha. Em determinado momento, ela pegou uma das pistolas da coleção do casal, presente do próprio Marcos, e disparou um único tiro na cabeça dele.

Depois de constatar a morte, Elize esquartejou o corpo com uma faca de cozinha. Distribuiu os pedaços em três malas e deixou o prédio. Foi abordada por uma equipe da Polícia Rodoviária Federal na estrada, mas o carro não foi revistado. Seguiu até a região de Cotia e abandonou as malas em área de mata às margens da estrada.


A Investigação

O desaparecimento de Marcos foi registrado pela família como possível sequestro. A polícia, inicialmente, aguardou o prazo padrão para ausência voluntária antes de intensificar as buscas.

A virada da investigação veio pelo guia espiritual do casal, o reverendo René Henrique Gotz Licht, que afirmou saber que a relação estava deteriorada e que havia recomendado a Marcos que trancasse o quarto onde ficavam as armas. Quando a polícia foi ao apartamento fazer uma busca e apreensão, encontrou roupas de grife semelhantes às que estavam junto aos pedaços do corpo já localizados na estrada. Os sacos de lixo também eram idênticos.

Em 4 de junho de 2012, o corpo foi identificado como de Marcos Kitano Matsunaga. Naquela noite, Elize foi presa sob prisão temporária. No dia seguinte, confessou o crime em detalhes.


O Julgamento

O julgamento de Elize Matsunaga aconteceu entre 28 de novembro e 5 de dezembro de 2016, no 5º Tribunal do Júri de São Paulo. Durou uma semana e teve sete jurados, três homens e quatro mulheres.

O promotor José Carlos Cosenzo sustentou que o crime foi premeditado. Argumentou que Elize o planejou após contratar o detetive, consultar um advogado sobre divórcio e antecipar sua viagem ao Paraná. Pediu condenação por homicídio triplamente qualificado: motivo torpe, meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima.

A defesa, conduzida pelo advogado Luciano Santoro, argumentou que o crime aconteceu em legítima defesa, durante uma discussão em que Marcos teria agredido e ameaçado Elize. Pediu o reconhecimento do homicídio privilegiado.

O júri condenou Elize por homicídio qualificado, com a qualificadora de recurso que impossibilitou a defesa da vítima, e também por destruição e ocultação de cadáver. A pena inicial foi de 19 anos e 11 meses de reclusão em regime fechado. Em 2019, o Superior Tribunal de Justiça reduziu a pena para 16 anos e 3 meses, após recurso da defesa.


Onde Elize está hoje?

Após cumprir dez anos em regime fechado na Penitenciária Feminina de Tremembé, Elize obteve liberdade condicional em maio de 2022. Dentro do presídio, participou de cursos profissionalizantes, trabalhou em uma confecção de uniformes gerida pelas próprias detentas e manteve bom comportamento.

Em liberdade, foi morar em Franca, no interior de São Paulo, onde deve permanecer por determinação judicial. Tentou trabalhar como motorista de aplicativo em 2023, mas desistiu após a exposição pública. Passou a confeccionar roupas e acessórios para animais de estimação.

A filha do casal, hoje com cerca de 15 anos, é criada pelos avós paternos desde o crime. Por decisão judicial, só poderá decidir se quer ter contato com a mãe ao completar 18 anos. Elize tenta, por ações judiciais, manter o reconhecimento legal da maternidade. As visitas diretas seguem proibidas.

Em 2021, antes de sair da prisão, Elize participou da série documental Elize Matsunaga: Era uma Vez um Crime, da Netflix, na qual falou pela primeira vez publicamente sobre o caso. Afirmou se arrepender do que fez. “Infelizmente, não posso consertar o que passou. Estou tendo uma segunda chance. Infelizmente, o Marcos não”, disse.

Elize Matsunaga na série documental Elize Matsunaga: Era uma Vez um Crime. (Foto: Divulgação/Netflix)


Reflexões e legado

O Caso Matsunaga mobilizou debates que iam além do crime em si. A trajetória de Elize, de uma cidade pequena do Paraná até o casamento com um dos herdeiros de uma grande empresa alimentícia, foi explorada pela mídia com enfoques muito distintos. Parte da cobertura reforçou estereótipos sobre sua origem e seu passado como acompanhante. Outra parte apontou para o ciclo de violência doméstica relatado por ela como contexto do crime.

O debate sobre premeditação versus impulsividade nunca foi completamente encerrado. A promotoria defendeu que havia um plano. A defesa sustentou que foi um colapso emocional. Os jurados concordaram parcialmente com cada lado.

O caso também evidenciou como crimes dentro de relacionamentos abusivos são julgados de formas diferentes dependendo de quem é a vítima e quem é o réu, e como a mídia molda a percepção pública antes mesmo de o júri se reunir.


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